E fica aqui o texto, pra não ser esquecido nunca...
Que filho tem vida, e vida é pra gente deixar viver
"Filho não é coisa, que a gente possa possuir. O direito que a gente tem é de amar. É estar presente.Engraçado a gente dizer “criar” um filho. Porque a gente não cria coisa nenhuma. A gente não faz. Quando muito, a gente tem a sorte de presenciar uma coisa bonita nascendo, como um milagre. Uma coisa nascida da gente mas também nascida do outro, nascida do contato, da pele encostada na outra pele, do sentimento que a gente deixa escapar por todos os poros, do amor que a gente não sabia que podia sentir.
Filho é como uma força da natureza: vem, e acontece. Ai da gente, se quiser segurar, colocar-se na frente, direcionar, decidir. Filho é vulcão, e a gente nunca sabe quando é que vai entrar em erupção. E quando acontece, transforma tudo. Se a gente só olha o que podia ter sido e não foi, vira sofrimento. Se a gente abre o coração e aceita o inesperado, vira dádiva.
Maternidade, vejam, é desse jeito: é preciso abrir mão do controle. Desistir da vigilância, aceitar que é besta e inútil a gente se outorgar o direito de decidir sobre tudo, de determinar cada detalhe, de saber de antemão como cada pedacinho da vida há de acontecer. Ter um filho ensina a gente a respirar. Bem profundo, largando os braços ao longo do corpo. Como quem se entrega sem saber o que será. Como quem aceita que o bonito da vida nos escapa das mãos – e por isso mesmo é que é bonito.
Ouvi, por esses dias, contar de mães que determinam a data do filho nascer com base na astrologia, ou para casar com a data do aniversário de casamento, com o aniversário do tio, do padrinho, do irmão mais velho. Mas filho tem a hora dele, que não é a nossa – pode até coincidir, mas quase nunca vai. Não é a gente que decide se é cedo, se é tarde, se é agora ou daqui a pouco. Tem que respirar fundo, respeitar o tempo do filho vir e esperar. De braços cruzados, e de coração embriagado de amor. A espera pode ser bonita, a espera pode ensinar muita coisa.
O aprendizado de esperar o filho dizer quando vai nascer é o primeiro, de muitos. E é um bom começo. Que vai ajudar a gente dali a pouco a ter serenidade para respeitar o tempo dele de mamar, seja de duas em duas horas ou infinitas vezes ao dia. E a não querer determinar quantas horas aquele bebê vai dormir por dia, se vai ser de noite ou durante o dia todo para depois varar a madrugada. E a entender que a gente não pode arrancar as cólicas com a mão, nem acalmar todas as angústias que a gente não sabe nomear, e nem eles. E a aceitar que a gente tenta, e isso às vezes vai ser o suficiente e outras vezes não. E a gente vai aprender a lidar com tudo o que nascer daí. Filho não vem com manual de instrução, com o indicativo certo do botão a apertar para obter o resultado correto. Filho não tem resultado correto, filho tem vida.
E depois o filho vai sentar, e engatinhar, e caminhar, e falar, e aprender a ler e escrever, e descobrir uma porção de coisas bonitas e outras bem doloridas, e em todas essas horas, a gente há de estar lá: sem controle. Querendo muito poder decidir pelo que a gente acha ser o melhor jeito, mas sem nenhuma possibilidade de que isso venha a acontecer. Porque o filho é um sopro, solta-se pelo mundo e a gente não consegue agarrar. Quando muito, se a gente se dedica e tem coração grande, a gente sente. E sente profundo, e sente doído, e sente bonito. E sente, e é tudo o que dá pra gente fazer.
E daí pra frente, a coisa só cresce, elevada a uma potência que nenhum número poderia calcular. O filho vai dar os seus passos, o filho vai sentir coisas só suas, o filho vai se relacionar com gente que a gente desconhece, vai criar vínculo que não tem nada a ver com a gente e a gente nem compreende, vai fazer suas escolhas, vai encontrar as verdades só suas.
E a gente, bem. A gente fica ali, suspirando. Crendo na força daquilo que a gente quis ensinar, e tentou tanto quanto deu conta. Guardando aconchegadinho no coração todo aquele amor desavergonhado, que a gente sabe que vai estar sempre ali, sempre de prontidão. Pro filho deglutir como achar que deve.
Porque o que o filho faz desse amor imenso que a gente tem pra dar, isso a gente também não controla não.
Mas isso, eu desconfio que é a maior sorte de todas".
(Renata Penna)
Nenhum comentário:
Postar um comentário