"Teresa, eles não fizeram por mal. O médico que disse à sua mãe,
em julho, quando ela estava com apenas quatorze semanas de gestação, que
deveria "marcar logo o parto para o dia 1º de janeiro de 2014". A
vizinha que, no elevador, afirmou que
"no caso da sua mãe era pior". O casal que perguntou, todos os dias:
"para quando é?". A moça do laboratório que insistiu, três vezes
seguidas, queria saber se era isso mesmo, se havia entendido certo que
"sua mãe vinha de duas cesáreas e agora decidiu por um parto normal".
Todas as médicas plantonistas do Hospital São Luiz que, no último
domingo, fizeram questão de demonstrar sua "preocupação" pelo
"histórico" dos últimos partos da sua mãe. Nenhum deles fez por mal,
filha.
* Julho de 2013
Tive muito medo quando, ao
deixar o consultório médico, notei o silêncio atípico na sua mãe. Ela
poderia tentar disfarçar o caminho inteiro, mas precisei de uma única
curva à direita. Tudo bem? –perguntei. Achei um absurdo marcar o parto
hoje, quando ainda nem sabemos como será a gravidez. Nos outros partos,
nós marcamos data –eu disse, sem ainda entender para onde estávamos
indo. Não quero isso –sua mãe estava silenciosamente transtornada. Não
quero isso, repetiu. As palavras do médico ecoavam na minha cabeça. "Ela
vem de duas cesáreas, Pedro,
é perigoso tentar um parto natural".
Perigoso e Pedro, aqui em casa, são duas palavras impossíveis de
constar na mesma frase. Envolvendo qualquer um de vocês. Mas com sua
mãe, veja bem, filha, mas com sua mãe elas não podem sequer habitar o
mesmo parágrafo. Sua mãe é a razão disso tudo aqui, o nosso elo mais
importante, o que permite a nossa existência nessa forma harmoniosa que
você e seus irmãos conhecem. Sua mãe, em perigo, somos nós, em perigo
ainda maior. Sem ela, não somos nada. As palavras do médico ecoavam na
minha cabeça, no meu fígado, no meu estômago. Adoeci várias vezes
durante a gravidez. Fiquei frágil. Tive medo. Todos os dias, com a
decisão de seguir para um parto natural, tive muito medo.
O
maior inimigo do medo, entretanto, teve encontros comigo diariamente, em
segredo. E aqui deixo o segredo de lado para dividir o que é preciso.
* Dezembro de 2013
Betina Bittar foi a médica escolhida por sua mãe para acompanhar a
gravidez. Betina é uma médica, mas poderia ser uma amiga daquelas que
vem aqui em casa comer o nosso famoso Cozido do sábado. Ela é das
nossas. E nos foi recomendada por pessoas em quem confiamos demais.
Ainda na primeira consulta, fiquei espantado com a sua serenidade diante
daquilo que, para mim, era motivo de tanto medo. Pode acontecer algo
com Lua, Betina? Pode. Mas pode acontecer no carro, a caminho de casa.
Digo, pode acontecer algo por conta das cesáreas? Pode. Mas poderia
acontecer mesmo que fosse a primeira gravidez. Em dezembro, depois de
vários momentos assim, ela disse a frase que tanto esperei. Ela olhou
para sua mãe, durante uma consulta, e disse: "parir é perder o
controle".
Passei a gravidez inteira formulando essa frase (e
imagem) que Betina traduziu. Minha forma de, secretamente, espantar o
medo tinha sido criar a certeza de que nada podemos controlar – e que,
diante disso, deixar que as forças maiores ajam por conta própria (aqui
falo da poderosa possibilidade de dar à luz, de reinventar a existência
humana, de dar um passo à frente –real– e de mudar, ainda que por
segundos, a percepção de tempo diante do Universo). Se há um deus,
filha, ele é uma mulher grávida.
* Sábado, 25 de janeiro de 2014
Logo cedo, sua mãe avisou que sentia cólicas. Pequenas cólicas. No
final da manhã, eram contrações leves, segundo ela. Entenda: estudei
pouco inglês, pouco espanhol e pouco francês. Grego, não. Isso para mim é
grego. Sou incapaz de entender uma contração. Por isso assisti a tantos
vídeos de parto na reta final da gravidez. Muitos amigos diziam (e eles
também não fizeram por mal) que a mulher virava um monstro. Ela vai te
xingar. Ela vai querer te bater. Ela vai aproveitar para colocar para
fora todas as dores. Estava pronto para uma tsunami humana. Mas o que
veio? Sua mãe, de novo, me ensinando tudo. Diante do aumento da
intensidade e frequência das contrações, ela ficava mais concentrada
para o momento DELA (odeio levantar palavras, assim, no texto, me perdoe
a deselegância, filha, mas explicarei logo mais). E foi assim durante
todo o sábado, aniversário da cidade de São Paulo, 25 de janeiro. Sua
mãe concentrada, cada vez mais. Até que por volta das 23h, Celine
(doula) chegou na nossa casa. Depois, Priscila (obstetriz). Depois, sua
avó, Lydia - que soube das contrações pela manhã, em Recife, e na
madrugada de domingo já estava ao lado da sua mãe. Estava tudo pronto.
Você estava pronta. Sua mãe estava pronta (mas isso fazia mais tempo).
* Domingo, 26 de janeiro de 2014
Chegamos no hospital às 8h e enfrentamos uma legião de caretas,
resmungos, cochichos e, por fim, má vontade. Mas aí, filha, já era. Você
tinha decidido nascer. E sua mãe tinha decidido ter um parto natural. O
momento DELA (falei que ia explicar, aqui vai).
O momento DELA
Descobri, depois desses meses, dias, horas, minutos tão especiais que,
no fim das contas, o parto é um momento muito simples, rápido,
maravilhoso.
É o menor limite possível entre a vida e a morte.
Ali, no segundo que separou você da vida aqui fora, filha, todos os
relógios pararam. De um lado, o risco de algo dar errado. A morte. O
nosso eterno medo diante do inevitável. Do outro lado, a chance de dar
certo. A vida. O nosso eterno medo diante do desconhecido. Só que entre o
inevitável e o desconhecido estava a sua mãe. E ela quis que fosse
assim.
E orquestrou a valsa intensa.
Morreu a dor.
Nasceu o grito.
Morreu a lágrima.
Nasceu o sorriso.
Morreu o tempo.
Nasceu a pausa.
Pausa.
No segundo que a separava de nós, aqui fora, o momento DELA, da sua
mãe. Nem eu, nem Betina, nem Celine, nem Mayra. Apenas a sua mãe,
naquela sala, poderia fazer o que fez. E fez.
Nasceu você.
O seu nascimento, filha, é a morte da descrença, do medo, da inércia,
do pessimismo. Você nasceu para a gente se despedir do controle. Parir é
perder o controle. Perder o controle é viver em paz. Sua mãe nos deu
você, você nos deu a paz. Obrigado, filha.
* Terça, 27 de janeiro de 2014
Ao chegar em casa, você dormia. Assim que acordou, levamos Irene e João
para vê-la. João havia visitado vocês no hospital. Estava sensível,
emocionado com a sua chegada. Ele é o melhor irmão mais velho que você
poderia ter, Teresa. Agradeça todos os dias por isso, ao Universo.
Irene, que ainda não havia visto você e sua mãe ao mesmo tempo, ficou
encantada, maravilhada. Os olhos brilhavam as mãos inquietas querendo
acreditar na sua existência e na ausência misteriosa da barriga da sua
mãe. Apontava para você, mostrava a quem estivesse por perto: nenê,
nenê, nenê! Irene vai ser o melhor abraço que você irá receber, pode
anotar isso aí no seu moleskine. Juntos, vocês três, em cima da cama, se
curtindo, desenharam a razão das nossas vidas.
Por fim, filha,
um pedido de pai. Sabe aquelas pessoas que duvidaram de tudo? Que
cogitaram explicações científicas para que sua mãe não tivesse um parto
normal? Sabe a vizinha desavisada? As médicas descrentes? Os amigos das
verdades absolutas? A moça do laboratório? Eles não fizeram por mal.
Sempre que cruzar com eles, conte como veio ao mundo. Aliás: conte como
você e sua mãe fizeram o mundo parar, por um segundo, para repetir o
milagre que acontece cada vez que resolvemos fazer algo em que
acreditamos verdadeiramente.
Do seu pai,
Pedro."
Aqui, um pequeno registro da sua chegada, filha.
https://www.youtube.com/watch?v=s4Rwp_rxcYI
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